Estudo revela que 90% dos municípios brasileiros já sofreram desastres ligados à água

Estudo revela que 90% dos municípios brasileiros já sofreram desastres ligados à água

Imagem: Prefeitura Juíz de Fora em Alerta/X

 

Um estudo inédito acendeu um sinal de alerta vermelho para o planejamento urbano e ambiental no Brasil. Nove em cada dez municípios do país (cerca de 90%) já relataram ao menos um desastre natural severo relacionado à água — englobando inundações, deslizamentos, tempestades ou secas extremas. Além disso, mais de 20% das cidades brasileiras são consideradas de altíssima vulnerabilidade, tendo registrado três das quatro categorias de desastres analisadas.

O levantamento, intitulado "Desastres relacionados à água no Brasil: uma avaliação de 1991 a 2024", foi realizado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Os dados mostram que os eventos extremos dispararam nas últimas décadas.

O avanço das águas e os impactos por categoria

Entre os anos de 2013 e 2024, as notificações de enchentes tiveram um salto expressivo e exponencial nos municípios brasileiros, passando de 29% no primeiro ano para impressionantes 88% no último ano analisado. De acordo com os cientistas, esse crescimento acelerado é reflexo direto da consolidação de plataformas digitais de monitoramento (que notificam mais os casos) somada à real intensificação das mudanças climáticas globais.

A pesquisa baseou-se nos Registros do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres e do Atlas Digital de Desastres Naturais, dividindo as ocorrências e impactos econômicos em quatro frentes principais:

  • Inundações: Representam 45% de todos os registros (sendo responsáveis por 16% das mortes e 32% das perdas econômicas);

  • Tempestades: Equivalem a 8% das ocorrências (com 11% das mortes e 5% dos prejuízos);

  • Secas prolongadas: Respondem por 6% do total (mas concentram 35% das mortes indiretas e 7% das perdas financeiras);

  • Deslizamentos de terra: Somam 5% dos casos (gerando 1% das mortes e 2% dos prejuízos econômicos globais).

Retrato regional da destruição

O estudo evidencia como a geografia brasileira reage de formas distintas aos eventos climáticos. O Sudeste desponta como a região com maior mortalidade decorrente de enchentes, impulsionada pela alta densidade demográfica em áreas de risco. O Nordeste, por sua vez, é o que mais sofre economicamente com as estiagens severas, registrando um prejuízo de quase US$ 29 milhões (cerca de R$ 147 milhões na cotação atual). Já o Sul do país concentra o maior número de inundações frequentes e óbitos causados por tempestades severas.

Ao todo, o Brasil acumulou historicamente 59.658 desastres catalogados, com 4.774 mortes confirmadas, 3.031 desaparecidos e mais de 129,7 milhões de pessoas afetadas de alguma forma. O prejuízo financeiro acumulado ultrapassa a impressionante marca de R$ 628 milhões (valores corrigidos pela inflação).

Municípios mais atingidos no país:

  • Nova Friburgo (RJ): Líder em mortes decorrentes de inundação (432 óbitos);

  • Petrópolis (RJ): Líder nacional em mortes por deslizamentos (108) e tempestades (327);

  • Milagres (BA): Maior registro de mortes associadas aos efeitos da seca (64 óbitos);

  • Rio do Sul (SC): Cidade com a maior perda financeira decorrente de inundações (cerca de R$ 11,4 milhões);

  • Maceió (AL): Recordista em perdas econômicas provocadas por deslizamentos de terra (aproximadamente R$ 14,4 milhões).

Os pesquisadores ponderam que algumas classificações de desastres foram registradas de forma imprecisa nos sistemas ao longo dos anos, o que sugere que os impactos reais podem ser ainda maiores do que os dados oficiais mostram.

Urgência em políticas de prevenção e Defesa Civil

Mesmo com a recente redução nos índices de desmatamento na Amazônia em 2024 na comparação com a última década, a floresta continua sob forte pressão devido à abertura de pastagens, incêndios florestais, mineração e abertura de estradas, o que desregula o regime de chuvas de todo o continente.

O estudo conclui alertando para a necessidade urgente de os governos municipais, estaduais e federal colocarem a adaptação climática no topo das políticas públicas. É indispensável o investimento técnico nas equipes locais de Defesa Civil para melhorar o tempo de resposta, mapear com precisão as áreas de risco e evitar tragédias humanitárias, como as registradas recentemente em Minas Gerais, onde chuvas torrenciais deixaram dezenas de mortos e milhares de desabrigados nas cidades de Ubá e Juiz de Fora.

Via: CNN Brasil

 

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