Em meio a tensões diplomáticas, EUA acusam Brasil de falha contra trabalho forçado e propõem nova tarifa de 12,5%

Em meio a tensões diplomáticas, EUA acusam Brasil de falha contra trabalho forçado e propõem nova tarifa de 12,5%

Imagem: Getty Images

 

A escalada de tensão comercial entre Brasília e Washington ganhou um novo e complexo capítulo. O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) incluiu o Brasil em uma lista de 59 países, além da União Europeia, acusados de "não conseguirem" proibir a importação de bens produzidos com trabalho forçado. Como retaliação, o governo do presidente Donald Trump propôs a aplicação de uma tarifa adicional de 12,5% sobre os produtos brasileiros.

O anúncio ocorre apenas um dia após o mesmo órgão norte-americano sugerir uma taxação de 25% contra o Brasil sob a justificativa de práticas comerciais "irrazoáveis" em setores como comércio digital, etanol e propriedade intelectual. Se somadas, as duas medidas podem elevar as barreiras alfandegárias a produtos brasileiros para 37,5%.

Governo brasileiro reage e cita "protecionismo unilateral"

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) manifestou "profunda discordância" em nota oficial e criticou a postura de Washington:

"É lamentável que tema tão relevante como o da proteção de condições dignas para milhões de trabalhadores e trabalhadoras seja desvirtuado para servir de justificativa a medidas protecionistas unilaterais", afirmou o ministério.

A pasta destacou que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) reconhece o Brasil há décadas como uma referência global no combate ao trabalho escravo devido ao rigor de sua fiscalização. O MDIC alertou ainda que o governo federal poderá acionar a Lei de Reciprocidade para responder a "situações de injustiça contra o Estado brasileiro" no comércio internacional.

O foco no Brasil: Carne bovina e a "Lista Suja"

O relatório do USTR possui 98 páginas e cita o Brasil expressamente 19 vezes. O documento norte-americano usa a própria "Lista Suja" do Ministério do Trabalho brasileiro — que dá transparência às fiscalizações internas contra o trabalho análogo à escravidão — como argumento, alegando que "está bem documentado que o trabalho forçado é utilizado na produção de gado no Brasil".

O texto deixa claro que o pano de fundo é a disputa por mercados agrícolas internacionais. O governo americano aponta que, entre 2015 e 2025, o volume de exportações de carne bovina congelada do Brasil para os mercados investigados quase dobrou, enquanto o dos EUA cresceu apenas 21%, com forte vantagem brasileira no fornecimento para a China.

A investigação da Casa Branca foi ampla e condenou todas as 60 economias analisadas (que representam 99% das importações americanas), incluindo aliados históricos como Reino Unido, Japão, Israel e a União Europeia. Para seis economias — Canadá, União Europeia, Equador, México, Paquistão e Indonésia —, a tarifa proposta foi menor, de 10%. Especialistas e ministros de outros países, como o da Nova Zelândia, acusam os EUA de usarem o trabalho forçado como pretexto para restabelecer os tarifaços generalizados de Trump que haviam sido derrubados pela Suprema Corte americana em fevereiro.

Guerra política e acusações de "traição à pátria"

O cenário econômico inflamou o debate político no Brasil. O anúncio das sanções coincidiu com uma agenda em Washington do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que se reuniram com Donald Trump no Salão Oval e com o secretário de Estado, Marco Rubio.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu o tom e atribuiu o avanço das punições americanas à influência da família Bolsonaro, classificando os parlamentares como "vendilhões e traidores da pátria" que foram ao exterior pedir a intromissão de uma potência estrangeira nos assuntos internos. Lula também criticou a recente decisão de Washington de classificar as facções brasileiras PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. "Não aceitamos ser tratados como uma republiqueta", disparou o petista.

Por outro lado, Flávio Bolsonaro publicou uma carta oficial em inglês enviada a Marco Rubio pedindo que os EUA não apliquem as tarifas sob a justificativa de que a medida traria "sérios danos ao povo brasileiro" diante de um quadro de deterioração fiscal. O senador rebatou as críticas do Planalto afirmando que defende o setor produtivo nacional e que é preciso negociar de forma séria, "não com bravatas, como faz Lula".

Os Estados Unidos abriram um período de consultas públicas que vai até o início de julho. O representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, classificou reuniões recentes com interlocutores de Lula e Trump como "construtivas", mas admitiu "divergências significativas". O prazo final para negociações antes da adoção de medidas efetivas termina no dia 15 de julho.
Via: BBC

 

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